Inovação: sem ela, nosso horizonte é de incertezas!

Quando, no começo dos anos 80, Marshall Berman escolheu como título para seu livro a frase “Tudo o que é sólido desmancha no ar”, provavelmente não imaginava que, 35 anos depois, esta expressão seria o retrato fiel da realidade que hoje vive globalmente o mundo empresarial. Isso mesmo: mudanças profundas e contínuas de valores, conceitos, posturas, necessidades, expectativas e papéis passaram de tal modo a influenciar a dinâmica social que as organizações de todo tipo são obrigadas a se ajustar às novas condições que surgem ininterruptamente, sob pena de ficar defasadas, anacrônicas e obsoletas, perdendo sua finalidade, sua função, sua essência, enfim sua razão de ser.

Até duas ou três décadas atrás, bastava às empresas serem eficientes para garantir eficácia, ou seja, para se manter em boa posição no mercado, fazendo bem o que era seu propósito, em uma situação em que o desejo e a necessidade do cliente-consumidor, assim como o comportamento da concorrência, eram definidos, estáveis e “estáticos”.

Nos últimos anos, essa realidade mudou, e muda mais a cada dia, e com maior velocidade e intensidade. O cliente-consumidor empoderou-se, abandonou a posição passiva de se contentar com o que estava disponível e lhe era oferecido. Deixou de lado a tradição cômoda de ser fiel às marcas preferidas para arriscar e conhecer novas alternativas do que pode vir a atender suas necessidades, que por sua vez também se tornaram mutantes.

É o novo consumidor que agora dita o que quer e como quer, tão grande é o universo de produtos, opções de escolha e de formatos de entrega, tornando-se assim o sujeito determinante na relação com os fornecedores de todos os ramos de negócio. Entre eles o de produtos financeiros.

Além disso, somando-se ao papel desempenhado pela imprensa, os canais digitais independentes e os perfis pessoais nas redes sociais deram voz forte ao consumidor para declarar globalmente sua opinião, favorável ou contrária, sobre produtos, serviços e posturas empresariais diversas, como por exemplo em relação ao meio ambiente, à ética e à cidadania.

A concorrência também mudou, sobretudo com o surgimento das empresas constituídas a partir da visão contemporânea dos millennials – e até mesmo dos centennials – e fortemente amparadas pela mais moderna tecnologia que, além de reduzir custos operacionais de produção, distribuição e relacionamento, proporciona agilidade, simplicidade, eficiência, individualização, personalização, maior segurança e vários outros atributos de grande valor, muitos dos quais viabilizados com o uso da inteligência artificial. As startups e fintechs que o digam…

Diante disso tudo, nada mais resta às empresas que desejarem continuar em cena e ter bom desempenho senão adequar-se a esta realidade, a começar pela análise da era em que se encontram e quem são e em qual tempo e mundo vivem os clientes que ela busca atender.

Este, inclusive, é o primeiro passo no caminho da inovação – principalmente da inovação disruptiva -, que em linhas gerais é o processo pelo qual as organizações buscam alcançar a simplicidade, a conveniência e a acessibilidade para substituir a complexidade e o alto custo de seus produtos e serviços. Mais simples e acessíveis, os produtos e serviços são renovados e revigorados, além de ter seu mercado grandemente ampliado.

Este conceito reforça a ideia de que inovação não é invenção, pois enquanto a invenção consiste em criar algo que ‘não existe’, a inovação pode significar recriar, adaptar, renovar um produto ou serviço já existente, adequando-o às atuais necessidades, anseios, desejos, condições, perfil e expectativas do consumidor, cliente ou usuário. No caso das cooperativas, do cooperado.

Importante destacar que na inovação, seja disruptiva, seja incremental, a ruptura propõe o desligamento de conceitos, padrões e comportamentos que, por não corresponderem mais à realidade atual, não fazem mais sentido. Isto significa ampliar a visão, deslocar o foco do que é tradicional e consagrado para uma compreensão mais contemporânea, ver a questão sob a ótica do cliente, usuário e consumidor, e não apenas com o olhar de empresário.

Neste universo, as cooperativas não são exceção. Também para elas, a inovação, especialmente a de caráter disruptivo é uma ordem, imprescindível para seu crescimento, manutenção e permanência. Pela referência histórica original da criação da Cooperativa dos Probos Pioneiros de Rochdalle, em 1844, na Inglaterra, com fundamentação plenamente humanista, ainda há cooperativas que não se veem como empresas de mercado e, por isso, se colocam à margem das novas regras que vigoram no mundo dos negócios.

Devo alertar que esta não é a melhor saída, pois seus cooperados são clientes potenciais de empresas concorrentes, que farão tudo para conquista-los, oferecendo-lhes as mais modernas, mais atraentes e encantadoras soluções de mercado, para as necessidades e expectativas que eles apresentam ou para o que elas julgam que possam se interessar.

A realidade mostra que não existe momento certo para as empresas, entre elas as cooperativas de crédito, iniciarem seu processo de inovação disruptiva. O ideal é que esse movimento já tenha sido começado, estrategicamente, e esteja em curso e adiantado, ou, caso contrário, que comece imediatamente, o quanto antes. Que seja fruto de uma atitude corporativa corajosa, madura, técnica e responsável, que olhe a um só tempo para dentro e para fora da organização.

Que analise sem temor, proteção, nem constrangimento, indistintamente, todos os aspectos internos, e, do mesmo modo, avalie tudo o que se refere não apenas ao seu público efetivo, mas também ao seu público potencial, ou seja, não somente os cooperados de hoje, mas inclusive as pessoas que, em algum momento, possam vir a fazer parte de seu quadro social ou, então, interferir positivamente na opinião ou na decisão de outro, a seu favor.

E, a partir deste conhecimento e de uma estratégia vencedora, sair em busca da simplicidade, da conveniência e da acessibilidade, que, conforme sabemos, são os pilares da inovação disruptiva.

Kedson Macedo
Presidente na Confebras e Diretor Executivo na Cooperforte